Até 2012 eu era só um advogado tributarista. Não que ignorasse
as questões da segurança pública e da violência, mas as pensava de forma
abstrata, como qualquer pessoa. Após ter concluído o curso de Direito
pela Universidade Federal de Goiás (UFG), passei um ano trabalhando em
um grande escritório do Recife. Retornei a Goiânia com o objetivo de
montar banca própria, incentivado por meu pai. Naquele ano, voltei a
morar com ele.
Estava esperando por ele quando recebi o fatídico telefonema, às
14h22 do dia 5 de julho de 2012. Na véspera ocorrera nossa última
conversa. Ele entrara na sala de televisão para me perguntar rapidamente
sobre uma empresa que havia me contatado e fora dormir. No dia seguinte
saiu cedo, não o vi. Fui almoçar em casa para conversarmos melhor
depois do seu programa.
Meu pai era radialista e jornalista, comentava futebol das 12h00 às
14h00 na Rádio Jornal 820 AM, atual Rádio Bandeirantes. Era conhecido
como “o mais polêmico do rádio” por não medir palavras nas ácidas
críticas que dirigia às gestões dos cartolas goianos; citava nomes e
fatos concretos, fugindo dos comentários genéricos adotados por outros
profissionais.
Num dia normal, no máximo às 14h15, seu Ford Ka preto já teria
estacionado no portão; a rádio ficava ali perto. Passaram alguns
minutos, olhei o relógio do celular, mas não me preocupei. Eis que o
aparelho toca. “Valerinho, pelo amor de Deus, vem aqui pra rádio que seu
pai tomou um tiro”, disse Lorena, minha madrasta, aos prantos. Antes
que eu fizesse qualquer pergunta, a ligação caiu, ou ela desligou. Não
sei.
Telefonei então para o administrador da emissora, Pedro Gomes, que
atendeu de pronto. “Pedro, que história é essa de que meu pai tomou um
tiro?” “Onde você está?”, perguntou ele. “Em casa”, respondi. “Vou
mandar um carro da rádio aí, que seu pai levou uns tiros.”
O plural me apavorou. Alguns minutos depois chegou o Fiat Uno
plotado. Sentei no banco do passageiro e Elisvânia, a coordenadora
financeira da Jornal, do banco de trás passou a mão em meu ombro, numa
condolência. No caminho parentes e amigos me ligavam, mas ninguém dizia
nada específico. Só perguntavam se estava tudo bem. Quando o carro
chegou na esquina da Teixeira de Freitas, rua da emissora, não conseguiu
seguir devido ao acúmulo de gente. Desci e continuei o trajeto a pé até
avistar a cena que mudaria minha vida pra sempre: a esquina onde,
cercado por faixas de isolamento, o Ford Ka preto estava parado na
diagonal, com as duas portas abertas e os vidros crivados de balas.
Um detalhe me perturbou particularmente: o pé do meu pai pendendo pra
fora do carro, com seu tênis cinza e aquela meia levantada da qual eu
sempre caçoava. Não tive coragem de me aproximar. Fiquei parado,
incrédulo. As vozes e as imagens pareciam oriundas de outro mundo. Ainda
assim, precisei dar a notícia à minha irmã caçula, que ligava sem
parar: “Nosso pai morreu, Laura”.
Minutos depois chegou meu avô Manoel de Oliveira, radialista e
jornalista há 50 anos. “Mataram meu filho!”, gritou. O choro e os brados
daquela voz poderosa – e conhecidíssima dos goianos – delinearam no
rosto de todos a mesma consternação: como as coisas chegaram a este
ponto?
Cresce a tensão
Em depoimentos na Delegacia Estadual de Homicídios (DIH), todos os
colegas de meu pai, tanto da Rádio Jornal quanto da PUC-TV, onde era
comentarista do programa Mais Esportes, concordaram em um ponto:
recentemente houvera uma escalada nas severas críticas do jornalista à
diretoria do Atlético Clube Goianiense, que numa ascensão meteórica
saíra da série C para a série A do Campeonato Brasileiro, mas
encontrava-se em má fase na competição de 2012.
Uma figura em particular se destacava: o poderoso empresário Maurício
Sampaio, então vice-presidente do time, cargo que ocuparia até o fim de
junho, ou seja, apenas dias antes do assassinato. Ele era velho
conhecido do meu pai.
Cinco temporadas antes, em 2007, meu pai viajara ao Piauí para
narrar, pela TV Brasil Central, afiliada da Cultura em Goiás, o jogo
Barras (PI) vs. Atlético (GO), que valia classificação ao quadrangular final do Campeonato Brasileiro na série C daquele ano.
Hospedado no mesmo hotel do clube goianiense, ele afirmou ter
descoberto uma tentativa de compra da partida. Duas temporadas depois,
em 2009, Valério denunciou o uso de drogas por alguns jogadores nas
dependências do clube. Foi processado. Quem compareceu à audiência foi o
próprio Maurício, mas a ação judicial não seguiu adiante.
Nada se compara, porém, àquele sinistro primeiro semestre de 2012,
quando as críticas à diretoria rubro-negra se intensificaram, chegando a
uma tensão pública e notória. “Uma vaca na árvore”, dizia o jornalista
sobre a presença do Dragão na elite do futebol brasileiro. “Se um dia
você estiver andando e vir uma vaca na árvore, pode até não saber como
ela subiu lá, mas sabe que vai cair.” O time de Campinas – bairro mais
antigo de Goiânia, precedente, aliás, à construção da capital – era
figura constante na zona de rebaixamento do campeonato. “O Atlético está
na série A, mas não é time de série A, não”, disparava meu pai em seus
programas.
O jornalista atribuía a escalada do clube campineiro a uma injeção de
dinheiro oriunda de “patrocinadores tenebrosos”, como a Linknet,
envolvida no escândalo que derrubou José Roberto Arruda do Governo do
Distrito Federal após a Operação Caixa de Pandora, da Polícia Federal, e a Delta Construções, protagonista da famosa Operação Monte Carlo, que resultou na cassação do então senador Demóstenes Torres (DEM-GO).
Não por acaso, Valdivino de Oliveira, enquanto presidente do Atlético
Goianiense, foi secretário da Fazenda do governo Arruda e
posteriormente eleito deputado federal pelo PSDB. Outro deputado
federal, Jovair Arantes, líder do PTB na Câmara e principal articulador
da “bancada da bola”, era membro do Conselho Deliberativo do Dragão
Campineiro. Já Carlinhos Cachoeira e Demóstenes Torres, então acusados
de lobistas da Delta em Goiás, eram – e ainda são – amigos pessoais de
Maurício Sampaio.
Em suma, meu pai, torcedor do Atlético, afirmava que a diretoria
atleticana usava o brasão do clube para captar dinheiro escuso e
criticava Sampaio, em particular, por supostamente utilizar recursos
para a aquisição de jogadores que mal seriam testados em campo e
serviriam apenas de lucro nas futuras negociações com outros cartolas.
Em 2012, com 49 anos de idade, meu pai tinha 35 de carreira,
trabalhara em praticamente todos os veículos de rádio e televisão de
Goiás como repórter convencional ou comentarista esportivo. Começara
ainda adolescente, puxando fio de microfone no campo do Estádio Serra
Dourada, e sempre levou o jornalismo a sério. No fundo, era só isso. Já
que estava comentando futebol, comentaria de verdade. Afinal, para que
discutir a qualidade técnica de um jogador que mal seria utilizado?
O trabalho do meu pai seria só comentar futebol, se esse fosse apenas
futebol. Acontece que não é. Os clubes no Brasil se transformaram em
agremiações de velhos políticos, coronéis. Escondem verdadeiras máfias.
Não bastasse a triste campanha no Brasileirão de 2012, o Atlético perdeu
a final do Campeonato Goiano. A diretoria do Dragão culpou a Federação
Goiana de Futebol, acusando-a de escolher árbitros favoráveis ao time
adversário. Comentando a polêmica na PUC-TV, em meados de junho, meu pai
reabriu uma antiga ferida: “Querem que a Federação roube o título pra
vocês? O problema é que lá no Atlético tem muito disso, nego acostumado a
fazer mutreta, a tentar comprar resultado, como lá em Piauí, né, senhor
Maurício Sampaio?”.
As críticas prosseguiram nos programas seguintes. Meu pai comentava,
em debates ao vivo com outros jornalistas, boatos de que Sampaio chegara
a pagar a torcida organizada rubro-negra para pichar os muros do
próprio clube com xingamentos a jogadores, e até a dirigentes, se
ocasionalmente caíssem no desagrado do vice-presidente. Logo as
represálias começaram, atingindo, primeiro, outro profissional da
imprensa.
Também comentarista esportivo, Charlie Pereira era colega do meu pai
na PUC-TV e trabalhava para Maurício na Rádio 730 AM. Sim, o cartola e
então cartorário era, e ainda é, “dono” de rádio. Adquiriu o controle da
emissora no início de 2012, em sociedade com o advogado Neilton
Cruvinel Filho e o apresentador Joel Datena, filho do popular
apresentador José Luiz Datena.
A 730 é a rádio mais tradicional do jornalismo esportivo goiano. Meu
avô, com sua popular “Equipe do Mané”, manteve uma bem-sucedida
programação esportiva na então Rádio Clube durante os anos 1980. Em
1997, a emissora foi reinaugurada por Jorge Kajuru sob a alcunha “Rádio K
do Brasil”, em homenagem a Juca Kfouri. Só em 2003 ela foi batizada de
“730”, referência à frequência da onda de transmissão. E foi na 730 que
Charlie recebeu o ultimato: ou ficava na rádio ou na TV. Sampaio não
queria nenhum dos “seus” dividindo bancada com meu pai.
O jornalista deixou então a PUC, fazendo com que um dos coordenadores
do programa, Daniel Santana, procurasse Maurício na intenção de
dissuadi-lo da absurda exigência. O encontro se deu no 1º Tabelionato de
Protestos e Registro de Pessoas Jurídicas, Títulos e Documentos de
Goiânia, vulgo “Cartório WSampaio”, que o cartola ocupava interinamente
(sem concurso) desde 1988, ano do falecimento do antigo tabelião, seu
pai, Waldir Sampaio. “Quem não está comigo está contra mim”, foi sua
resposta segundo Daniel.
Ainda em meados de junho de 2012 surgiram boatos de que Maurício
deixaria a diretoria do Dragão em razão de desavenças financeiras com o
clube. Instado a comentar o assunto, meu pai afirmou que o “deselegante”
e “aborrecido” Sampaio era “descartável” e, por fim, pronunciou a
expressão que seria celebrizada pelas crônicas policiais: “Meu amigo,
você pode ver em filme de aventura, quando o barco está enchendo de
água, os ratos são os primeiros a pular fora”.
A frase acirrou ainda mais os ânimos. No dia 19 de junho, o Atlético Clube Goianiense enviou cartas
à PUC-TV e à Rádio 820 proibindo-as de entrar nas suas dependências,
vestiários ou em quaisquer instalações ocupadas pelo time. O documento,
assinado pelo presidente Valdivino de Oliveira e o vice Maurício
Sampaio, classificava meu pai como “persona non grata”.
A partir daí meu pai começou a demonstrar uma incomum ansiedade.
Falava em abandonar o jornalismo e passou a portar, secretamente, uma
pistola taser. Um dia eu o flagrei guardando o objeto. “Para proteção”,
disse, constrangido. Um jornalista seu amigo, André Isac, conta tê-lo
procurado naqueles dias com uma denúncia séria contra o Atlético, um
furo de reportagem. “Ele parecia mais carregado e disse: ‘Olha, vou te
pedir uma coisa: não fala disso não, porque não vale a pena. Essas
pessoas são muito perigosas’”, relatou André.
Dias depois, minha madrasta diria à Polícia Civil ter
ouvido do esposo que Maurício “estava fazendo de tudo para que fosse
demitido da rádio e da TV, inclusive oferecendo patrocínios mensais”.
Uma carta anônima
Meu pai foi sepultado na manhã do dia 6 de julho, com presença
massiva da imprensa goiana, de familiares, amigos e autoridades,
inclusive o governador de Goiás e o prefeito da capital. Lembro de, ao
me aproximar do caixão, fixar-me na sua mão esquerda, que estava
enfaixada. Uma bala a atingira quando ele fez “posição de defesa”,
segundo os peritos e legistas. A maior referência da minha vida estava
ali, envolta em flores. Meu pai, a quem devo meu nome.
Desde aquela manhã a imprensa só falava sobre o crime. Todos os
parentes, amigos e conhecidos eram gentis comigo, fazendo o possível
para me distrair. Mas isso ficou ainda mais difícil quando uma carta anônima chegou às redações de todos os jornais de Goiânia.
Com o título “Nada muda na PM goiana”, a denúncia foi amplamente
divulgada e caiu como uma bomba tanto na Secretaria de Segurança Pública
quanto em meu coração. Dizia: “O assassinato do jornalista Valério
Luiz, filho do Mané de Oliveira, tem ligação direta com o Tenente
Coronel (e se ‘deus’ abençoar e o Governador assinar, futuro coronel)
Urzeda que todos sabem é intimamente ligado à diretoria do Atlético, uma
das principais vítimas dos comentários da vítima [meu pai]”.
A seguir, o texto era ainda mais preciso: “Quem executou o jornalista
foi o SD Figueiredo do CME2, se houver um reconhecimento do mesmo pelas
testemunhas não haverá dúvidas. Estão organizando uma acusação contra
um menor de idade, que ou irá assumir, ou irá morrer, e a arma do crime
será plantada com esse indivíduo, podem anotar isso aí, se não der tempo
dessa informação chegar no comandante Urzeda”.
Depois de lê-la, lembro de perambular horas a fio pelo parquinho do
prédio da minha tia, pensando. Sentia-me ridiculamente pequeno e
impotente. Era horrível a sensação de que forças muito maiores,
inclusive do Estado, se movimentaram para matar meu pai. Não hesitariam,
pensei, em atingir a mim e à minha família. Decidi sair à rua o mínimo
possível.
O tal tenente-coronel Urzeda era não só “intimamente ligado à
diretoria do Atlético” como foi diretor de relações públicas do time até
as vésperas do assassinato. Renunciou no dia 19 de junho, por escrito,
em solidariedade a Maurício Sampaio, a quem chamou de “homem de
personalidade forte, leal, amigo, de conduta ilibada”. Mesmo assim, em
constantes entrevistas, inclusive no velório, prometia “ajudar nas
investigações”. Em resposta, minha família mostrou a delicada posição do
tenente-coronel e pediu seu afastamento do caso. Fomos atendidos.
Ainda em julho, no dia 21, fizemos um protesto
por justiça no Estádio Serra Dourada, antes do jogo Goiás (GO) vs. Avaí
(SC), que valia pelo Campeonato Brasileiro da série B de 2012. Os
jogadores do Verdão entraram em campo vestindo camisetas estampadas com a
foto do meu pai e a inscrição: “Não deixem que o povo esqueça esse
crime”. Faixas da Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de Goiás
(Aceeg) exigiam resposta das autoridades.
Semanas e semanas se passaram, no entanto, sem nenhum avanço.
Outubro, novembro e dezembro foram marcados pela troca do secretário
de Segurança Pública e por audiências com o governador Marconi Perillo,
que, em duas ou três oportunidades, convocou ao Palácio das Esmeraldas
os delegados encarregados do inquérito e, na presença do meu avô,
requereu empenho. A imprensa não só lembrava constantemente o caso como
fazia uma espécie de diário das investigações, principalmente o Jornal
Opção, através de renitentes notas de seu editor-geral, Euler Fagundes
de França Belém.
Em fevereiro de 2013, sete meses depois do crime, quando a ansiedade
já ficava insuportável para mim, foi o próprio Euler que me ligou.
“Valério, está sabendo das prisões no caso do seu pai?” Corri para a
delegacia.
Era meio-dia, e jornalistas se amontoavam em volta da delegada
Adriana Ribeiro. Ela falou sobre um açougueiro, Marcus Vinícius Pereira
Xavier; um sargento da PM, Djalma Gomes da Silva; e um empregado de
Maurício Sampaio, Urbano de Carvalho Malta. Comentava-se que o
assassinato fora organizado pelo sargento e por Urbano. Mas faltava uma
peça no quebra-cabeça.
Na manhã seguinte, li a notícia na internet, incrédulo. Maurício Sampaio acabara de ser preso.
Ao cabo de quase oito meses de investigação, a Polícia Civil encerrou
o inquérito, indiciando o cabo Ademá Figuerêdo Aguiar Filho como o
autor dos disparos, o açougueiro como partícipe, o sargento Djalma como
primeiro operador, Urbano de Carvalho Malta como o segundo operador. O
empresário e cartola Maurício Borges Sampaio foi apontado como mandante.
Eis o que diz o inquérito.
Como se mata um jornalista
Marcus Vinícius Pereira Xavier, vulgo Marquinhos, possuía um açougue
no bairro Parque Amazonas, em Goiânia, e tinha como cliente o sargento
Djalma Gomes da Silva. Paralelamente ao açougue, mantinha uma vida
criminosa, com passagens pela polícia por assalto e roubo de carros.
Devido à amizade com o PM, era acobertado e em troca repassava
informações sobre outros bandidos.
Segundo Marquinhos, Da Silva o procurou no açougue solicitando ajuda a
“um amigo”. Dias depois, em 3 de julho, reapareceu na companhia de
Urbano de Carvalho Malta. Precisavam “passar um susto” em um indivíduo,
disseram, a mando do “patrão de Urbano”. Pediram que Marcus arrumasse
uma motocicleta – a sua foi rejeitada por ser amarela, chamativa.
Providenciou então a Honda CG preta de seu pai, além de uma camiseta
velha e um capacete. Mais tarde, Da Silva voltou ao açougue sozinho e
deixou um revólver calibre 357 carregado. Dois dias depois, era chegada a
hora.
Naquela manhã, Marquinhos foi avisado que Figuerêdo passaria perto
das duas da tarde. O policial chegou em um Fiat Palio azul-escuro,
vestiu a camiseta, o capacete, pôs o revólver na cintura e acelerou com a
moto rumo à Rádio Jornal 820 AM, ali perto. Não muito depois, os
objetos e a Honda foram devolvidos. Marcus queimou a camiseta. A arma
estava descarregada.
O inquérito relata que uma das testemunhas viu um motoqueiro parado
na contramão da avenida T-5, como se esperasse algo. Ele dobrou na
estreita rua da emissora ao mesmo tempo que a testemunha, que
desacelerou a moto, com medo, e foi ultrapassada. Em segundos soaram os
estampidos. Um comentarista da Jornal, Alípio Nogueira, saiu para checar
o barulho. Ouviu uma voz dizer “liga pro Da Silva”.
A voz era de Urbano de Carvalho Malta, que, logo após a fuga do
atirador, abriu a porta do carro e se inclinava sobre a vítima ainda
agonizante. “Vou ligar pra ambulância”, respondeu Alípio, sem entender.
Os primeiros a chegar, contudo, foram equipes especializadas da Polícia
Militar. Segundo relatos de uma testemunha, intimidaram trabalhadores
braçais de uma construção contígua, que poderiam ter visto demais.
Da Silva fazia segurança para Maurício em dias de jogos. Em troca,
recebia dinheiro e isenção de mensalidade para os filhos numa escola de
propriedade do cartola. Assim como o colega, Figuerêdo costumava
acompanhar o ex-vice do Atlético ao Estádio Serra Dourada. Tanto o cabo
quanto o sargento eram seguranças também de Joel Datena. Na véspera do
homicídio, Urbano de Carvalho Malta se mudara para um casebre em frente à
Rádio Jornal, onde não pagava aluguel e mantinha vigilância sobre a
rotina de meu pai. O imóvel pertence a Maurício Sampaio. Nos depoimentos
do inquérito, consta que Urbano chegou a levar Marquinhos até lá e
dizer “esta é a casa em que eu trabalho”.
O tráfego de ligações foi intenso entre todos os acusados naquele 5
de julho, tendo sido identificada até mesmo uma chamada feita da cena do
crime, de Urbano para o cartório WSampaio. Estava clara a
circunstância: à medida que se aproximavam as 14h, Urbano se colocou na
calçada e, por celulares “bodinhos” – comprados e registrados num CPF
laranja apenas para o crime –, comunicou-se com Figuerêdo, deixando-o de
sobreaviso. Quando meu pai saía da emissora, uma última e curta
ligação, de 10 segundos, registrada às 13h59min17s, deu a ordem fatal.
Meses depois, o pai de Marcus relatou que o filho lhe confessou a
participação no assassinato numa ocasião em que assistiam a notícias a
respeito. O irmão dele também confirmou, e um primo acrescentou que,
segundo Marcus, o mandante foi Maurício Sampaio.
Duelo nos jornais, duelo nos tribunais
Já no dia 28 de fevereiro foi julgado o primeiro habeas corpus (HC)
impetrado a favor de Maurício Sampaio. A sala de sessões da 1ª Câmara
Criminal do Tribunal de Justiça mal comportava tanta gente. O relator, o
desembargador José Paganucci Júnior, votou pela manutenção da prisão
temporária, mas outro desembargador, Gerson Santana Cintra, surpreendeu a
todos.
Gerson Santana, que sempre atuara no cível e apenas havia dias estava
na 1ª Câmara Criminal, expôs uma fundamentação mais longa que a
sustentação oral do advogado de defesa e votou pela soltura. O voto foi
acompanhado pelo presidente da sessão, Ivo Fávaro, ao passo que a
desembargadora Avelirdes Pinheiro optou por manter a prisão. Um quinto
magistrado, Itaney Francisco Campos, chegou atrasado e não pôde votar.
Como o empate beneficia o réu, por dois votos a dois o Tribunal de
Justiça de Goiás (TJGO) concedeu o habeas corpus.
No dia seguinte, o juiz Lourival Machado da Costa, da 2ª Vara
Criminal de Goiânia, substituiu a prisão temporária por prisão
preventiva, e em 2 de março o cartola estava encarcerado novamente. A
essa altura, segundo jornalistas amigos nos contaram, funcionários da
Rádio 730 haviam sido acionados para defender o patrão em rasgados
editoriais. Nas páginas dos jornais, nos digladiávamos com o então chefe
de jornalismo da emissora, Nilson Gomes, ex-assessor de Demóstenes
Torres e detentor da língua mais ferina de Goiás.
“Liberdade para Maurício Sampaio é o mínimo a se fazer pela
democracia”, chamava o título de um dos seus artigos no jornal Diário da
Manhã. Respondi com dureza, dias depois, no mesmo jornal:
“’Pela democracia?’ Talvez o pior defeito das palavras seja não poderem
se defender quando usadas cretinamente […]. Não precisamos que nos
ensine o que é democracia. Nós nos lembramos da Constituição e não
confundimos seus artigos, incisos e alíneas com os do Código Civil,
Parte Especial, Livro I, Título VI, Capítulo I: ‘Da Compra e Venda’”. A
tréplica chamou-me de acusador e analfabeto.
No meio desse turbilhão, um segundo habeas corpus foi impetrado. O
julgamento aconteceu em tempo recorde. Muito criticado pelo atraso no
julgamento anterior, que resultou na soltura do cartola, o desembargador
Itaney justificou-se e dessa vez proferiu extenso voto mantendo a prisão preventiva.
Uma tremenda vitória, inesperada. Pensei que a situação estava
estabilizada pelo menos até o interrogatório dos réus. Por isso, foi com
surpresa e curiosidade que ouvi, ainda em abril, sobre o terceiro
habeas corpus.
Ao folhear a petição, me assombrou a engenhosidade da manobra. Em
entrevista a um jornal goianiense, a viúva do meu pai comentara ter
ouvido “que pessoas ligadas a Maurício Sampaio estariam procurando
Marcus Vinícius […], oferecendo dinheiro”. Aproveitando a deixa, um dos
advogados de defesa, Ruy Cruvinel Neto, requereu ao 4º Distrito Policial
de Goiânia a instauração de investigação de calúnia por parte de
Lorena.
O responsável pelo distrito, delegado Manoel Borges de Oliveira,
esperou alguns dias e mandou seu adjunto, Everaldo Vogado da Silva,
instaurar inquérito. Então Manoel Borges foi até a carceragem onde se
encontrava Marquinhos e pediu para conversar “informalmente” com ele.
Sem a presença de advogado, ao açougueiro foi requisitado assinar termo de depoimento no
qual constava a frase: “Que não tem conhecimento da participação de
Maurício Sampaio no episódio que resultou na morte de Valério Luiz”.
Manoel Borges não assinou a diligência de próprio punho, solicitou que o
adjunto assinasse em seu lugar e repassou tudo à defesa de Maurício.
A partir desse momento, a estratégia foi esperar as férias do
desembargador Itaney. No dia 30 de abril, início do descanso do
magistrado, foi protocolado o famigerado habeas corpus sob a
justificativa do novo depoimento de Marquinhos. O desembargador
substituto submeteu-o a julgamento e, por três votos a dois, Sampaio foi
solto mais uma vez.
Com a grande repercussão negativa, o delegado-geral da Polícia Civil
de Goiás afastou Manoel Borges do 4º Distrito Policial de Goiânia e
determinou a investigação da sua conduta. Teve então início outro
episódio folclórico: afirmando-se injustiçado, o delegado convocou
coletiva de imprensa e apresentou um vídeo, a gravação do clandestino
depoimento tomado de Marcus Vinícius na Delegacia Estadual de
Homicídios. Aos repórteres, alegou ter gravado a ocasião “para se
preservar”, pois já antevia “perseguições futuras”.
As imagens, feitas por um celular e sem o consentimento do depoente,
ironicamente serviram de prova tanto contra o delegado quanto contra o
ex-vice do Atlético, pois não corroboraram o termo de depoimento usado
no habeas corpus: não continham a frase que teoricamente inocentava
Maurício Sampaio. Os corregedores concluíram que Manoel Borges inseriu
informações falsas em documento público (depoimento de inquérito)
visando beneficiar Sampaio. Até hoje, no entanto, nenhuma punição
administrativa foi aplicada ao delegado, que hoje comanda o 7º Distrito
Policial de Goiânia.
Os pecados do padre
Na véspera do julgamento de um embargo contra o último habeas corpus
concedido a Maurício, um inusitado encontro no TJ estadual me deixou
boquiaberto. Envolveu um padre muito popular em Goiânia, Luiz Augusto,
que não só visitara Maurício Sampaio na cadeia como testemunhara em seu
favor, relatando as gordas doações oferecidas à paróquia, e dera até
entrevistas apregoando a inocência do réu.
Estava eu visitando os gabinetes de todos os desembargadores da 1ª
Câmara Criminal e entregando memoriais explicativos sobre como o
delegado Manoel Borges, em conluio com a defesa de Sampaio, os induzira a
erro. Ao chegar a vez da desembargadora Avelirdes Pinheiro, pediram-me
que esperasse na recepção, pois ela estava com alguém na sala. Minutos
depois, aparecia a magistrada no corredor, acompanhada do padre Luiz
Augusto, para orar com os servidores.
Ao me avistarem, ficaram brancos. Num gesto constrangido, o religioso
chamou-me para junto aos outros. Neguei balançando a cabeça. Daquela
oração eu não participaria, pois mandar padre conversar com
desembargadora católica fervorosa um dia antes de ela votar embargos
sobre a soltura de um assassino definitivamente não era obra de Deus. Ao
fim do pai-nosso, Luiz Augusto e Avelirdes vieram conversar comigo.
Por ironia, o padre é quem tinha pecados a confessar. Justificou-se
alegando não ter condições de saber se Maurício é culpado ou inocente.
“Mas em entrevistas o senhor afiançou a inocência”, respondi,
acrescentando que a condição de religioso conferia credibilidade a tais
declarações perante os fiéis. O pároco prometeu então jamais tocar no
assunto novamente. Hoje, responde a processo por receber salário da
Assembleia Legislativa goiana como funcionário fantasma, conforme
revelou uma reportagem especial do Fantástico.
Uma canetada, a liberdade e o Facebook
Com Maurício solto, em 27 de maio iniciaram-se as audiências de
instrução. Eu e dois promotores de justiça fazíamos as perguntas da
acusação. Do outro lado amontoavam-se advogados que conversavam na
orelha uns dos outros sem parar.
No segundo dia de audiência, 28 de maio, os advogados de Da Silva,
Figuerêdo, Urbano e Marquinhos, ancorados no habeas corpus concedido a
Sampaio, pediram a soltura de seus clientes. O Ministério Público
requereu vista dos autos para se manifestar, mas o juiz negou. Então, em
30 de maio, um dia antes de entrar de férias, o juiz Antônio Fernandes
de Oliveira revogou todas as prisões preventivas, numa canetada só.
Critiquei publicamente a decisão, pois o interrogatório dos réus não
estava concluído e um deles, o açougueiro, disse em seu depoimento ter
sido ameaçado de morte por Da Silva.
Com a soltura dos réus, Marcus Vinícius não compareceu em juízo para ser interrogado. Desapareceu.
Meses mais tarde recebi uma ligação de uma senhora do Real Conquista,
periferia de Goiânia, dando pista do seu paradeiro. A sogra do
açougueiro possui um salão de beleza naquele bairro e comentara com
clientes que a família estaria em Portugal.
Como saber com certeza e provar isso para a Justiça? Foi quando soube
que a esposa de Marquinhos mantinha uma conta no Facebook. Entrei no
perfil sem grandes expectativas, mas, acreditem, estava tudo lá: fotos
do casal na tranquila região de Caldas da Rainha. Uma delas continha até
agradecimentos a Deus pela “segunda chance”. Imprimi as imagens
imediatamente, enviei à imprensa e pedi nova prisão preventiva. Sem
demora, o juiz Lourival Machado me atendeu.
O mandado de prisão foi entregue às autoridades lusitanas e o nome
Marcus Vinícius Pereira Xavier, incluído entre os procurados pela
Organização Internacional de Polícia Criminal, a Interpol.
Em 7 de agosto de 2014, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras
português capturou o fugitivo. Seguiu-se o processo de extradição, que
só foi finalizado em 28 de novembro de 2014, com a chegada do açougueiro
ao Brasil. Hoje ele está detido no Complexo Prisional Odenir Guimarães,
em Aparecida de Goiânia, e ainda não se sabe com que dinheiro
transportou a família inteira para a Europa, onde viveram por mais de um
ano.
Ligações também no Judiciário
A cada ano completado desde o covarde homicídio do meu pai, realizamos uma manifestação pelas ruas de Goiânia. No primeiro deles,
5 de julho de 2013, centenas de pessoas ocuparam a Praça Cívica para
homenageá-lo e pedir justiça. Em 3 de outubro daquele ano, realizamos na
Assembleia Legislativa de Goiás uma audiência pública chamada “Imprensa
por Valério”, exigindo a proteção dos profissionais da imprensa.
Visitamos duas vezes a Secretaria Nacional de Direitos Humanos, em
reuniões com as ministras, além da Associação Brasileira de Imprensa
(ABI) e da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).
Fizemos, ainda, um pedido pela federalização do caso, em reunião com o
procurador-geral da República.
Participei do 6º Fórum Liberdade de Imprensa e Democracia, realizado
em Brasília, com a presença do Committee to Protect Journalists (CPJ),
que, no mesmo dia, entregou à presidente Dilma Rousseff um relatório com 12 episódios de jornalistas assassinados no exercício da profissão desde a sua posse em janeiro de 2011. Entre as mortes listadas, a do meu pai.
Tantos esforços de divulgação do caso foram engendrados em razão de
um temor específico: o peso da influência de Maurício Sampaio no
Tribunal de Justiça de Goiás. Afinal, eram quase 25 anos à frente de um cartório milionário, o WSampaio, que em 2013 foi o 4º cartório mais rentável do Brasil, chegando a faturar R$ 5 milhões por mês.
Soube mais sobre os meandros das ligações do tabelionato ao buscar
uma fiscalização do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) daquele ano.
Encontrei graves irregularidades identificadas no cartório WSampaio, o
que me levou a redigir uma Ação Popular pedindo o afastamento de
Sampaio. Entre elas, pagamento de notas fiscais frias emitidas por
empresas de fachada, algumas abertas por funcionários do próprio
cartório; cobrança de emolumentos acima das tabelas fixadas pela
Corregedoria do Tribunal de Justiça, lesando milhares de consumidores;
registros de documentos em sistema paralelo, fora dos livros oficiais; e
até a assunção de despesas do Atlético Clube Goianiense, segundo consta
no relatório do CNJ.
Mesmo assim, magistrados do TJ de Goiás mantinham no cargo
cartorários interinos, como Maurício Sampaio, passando por cima das
determinações do CNJ.
Num exemplo marcante, uma série de decisões de um famoso juiz local,
Ari Ferreira de Queiroz – que, na TV, chegou a criticar a prisão
preventiva de Maurício Sampaio pelo assassinato –, concedeu uma espécie
de monopólio de registro de veículos ao Cartório WSampaio.
Eis o que aconteceu: o Departamento Estadual de Trânsito de Goiás
(Detran-GO) estava anotando em seus registros os novos veículos
financiados que saíam às ruas. Maurício Sampaio, então, ajuizou ação
visando impedir o Detran de realizar tais registros antes que os
contratos de financiamento (alienação fiduciária e arrendamento
mercantil) fossem registrados primeiro nos Tabelionatos de Protesto e
Documentos de Goiânia. O juiz Ari concedeu liminar determinando
que todos os contratos de financiamento de veículos do estado de Goiás
fossem obrigatoriamente registrados em um dos Tabelionatos de Documentos
da Capital. Na prática, existiam apenas dois, mas o segundo, por alguma
razão, negou-se a fazer os registros. Como consequência, se alguém
financiasse um carro fosse em Goiânia ou Terezinha de Goiás, extremo
norte do estado, teria de registrar o contrato com o tabelião Maurício
Borges Sampaio.
Com essa série de decisões, o rendimento da serventia multiplicou-se.
Dizem que o dinheiro seria repartido em propinas, mas nunca consegui
informações aprofundadas. Sei, no entanto, que Sampaio desenvolveu até
um software de comunicação direta com o Detran. O sistema informava ao
órgão quais contratos já estavam registrados no tabelionato. Na época, o
presidente do Detran era Edivaldo Cardoso, flagrado pela Polícia
Federal em comprometedores diálogos com o bicheiro Carlinhos Cachoeira,
de quem Sampaio é amigo. A rede parecia não ter fim.
Finalmente, em junho de 2013, o Ministério Público propôs uma Ação
Civil Pública por ato de improbidade administrativa, pedindo o
afastamento de Maurício e o bloqueio de quase R$ 16 milhões em seus
bens. A esta altura, a liminar de Ari Queiroz que concedera o monopólio
estava suspensa pela presidência do Tribunal de Justiça e se
desenrolavam no CNJ procedimentos tanto contra o suspeito juiz quanto
contra Sampaio. Não tardou até o cartorário ser afastado, e o juiz, aposentado compulsoriamente.
A última batalha
Finalmente, em 30 de abril de 2015, Marcus Vinícius, Urbano Malta, Ademá Figuerêdo, Djalma da Silva e Maurício Sampaio foram mandados a júri popular
pela unanimidade do Tribunal de Justiça de Goiás. Mas ainda não há data
para o julgamento. No momento, encontram-se em tramitação os recursos
especiais e extraordinários dos réus para os tribunais superiores (STJ e
STF), última fase antes do júri. Com exceção de Marquinhos, os acusados
continuam livres e agora utilizam outras estratégias na batalha.
Entristece-me ainda hoje ouvir pessoas repetindo: “Santo, não era”;
ou “Se morreu, alguma coisa fez”. Esse preconceito foi inflado por
páginas anônimas e perfis fake na internet. Acusaram meu pai de
envolvimento com mulheres casadas, drogas, prostituição, infantilmente
tentando enquadrá-lo em quaisquer estereótipos sociais que afastassem o
apoio popular na nossa luta por justiça. Num momento de particular
inspiração para a crueldade, usaram a expressão “Valério Cheira-pó Luiz”. Em 19 de fevereiro de 2015, conseguimos decisão liminar na 2ª Vara Cível de Goiânia para tirar do ar uma das páginas.
Mas, para azar dos detratores, meu pai, apesar de intempestivo, era
testemunha de Jeová desde os 25 anos e homem de hábitos espartanos. Além
disso, era profissional renomado, com trajetória conhecida por todos, e
filho do maior nome do jornalismo esportivo de Goiás, Manoel de
Oliveira, meu avô, hoje o deputado estadual mais votado da história. Não
seria fácil estereotipar Valério Luiz, e não conseguiram.
Ainda assim, é sintomático que, para conseguirmos o indiciamento, a
denúncia e um curso normal de processo, tenhamos precisado confrontar
diretamente militares, um tenente-coronel, um delegado, dois juízes de
direito, setores da imprensa e até um padre. É surreal como um só homem
conseguiu instrumentalizar tantos agentes públicos a seu favor.
A cooptação de policiais é especialmente problemática. Aqui em Goiás é
comum as classes ricas arregimentarem parte da tropa para bicos como
seguranças, não raro pagando mais que a corporação e assim pervertendo
as relações normais de lealdade dos militares no seio social. “Maurício
Sampaio, amigo da Rotam”, essa era a inscrição de uma camiseta
encontrada na sua casa durante o cumprimento de um mandado de busca e
apreensão em 2013 – a Rotam é um destacamento especializado da Polícia
Militar goiana inspirado na Rota paulista. E, pra mim, ela simboliza as
bases da nossa sociedade subdesenvolvida: dinheiro e arma.
Lembram-se de que Figuerêdo chegou ao açougue de Marquinhos em um
Fiat Palio azul-escuro? Pois bem. Inadvertidamente, Da Silva, em sua
defesa prévia, juntou aos autos um documento restrito do comando
ao qual pertencia (Comando de Missões Especiais – CME) cujo teor
discrimina o contingente e as viaturas descaracterizadas do grupo em
2012, entre as quais justamente um Palio azul. Para mim, isso sugere que
a própria estrutura oficial do comando foi usada no crime.
Em janeiro deste ano, Maurício Sampaio retornou à diretoria do
Atlético Clube Goianiense, dessa vez não na condição de vice-presidente,
mas de presidente. A cerimônia de posse contou com as presenças de
Valdivino de Oliveira e do tenente-coronel Wellington Urzeda, atualmente
comandante de um recém-criado Batalhão de Operações Especiais – Bope.
Indignada, parte da imprensa local anunciou um boicote ao clube, fato repercutido nacionalmente.
Há uma ironia nessa história, que meros comentários sobre futebol
tenham atingido um grupo de poder inteiro. Isso porque, como já disse, o
futebol não é só futebol. Meu pai nem imaginava a profundidade das
conexões aqui narradas, mas, quando o cartola e agora ex-cartorário, do
alto da soberba, ordenou tão escandaloso assassinato, atraiu os olhares
para si e deixou aparentes esquemas, que por isso ruíram. Como
consentiam em dar tanta força a um homem só, a ponto de o deixarem se
julgar em condições para decidir sobre vida e morte?
Fiz essa pergunta repetidamente a mim mesmo, enquanto lembrava do meu
pai envolto em flores no caixão. Em lugares patrimonialistas,
corruptos, dominados por máfias e ranços coronelistas, a segurança
individual existe até não cruzarmos o caminho de algum “coronel”, que,
infiltrado nas instituições, pode neutralizá-las para fazer valer a lei
da força.
A Morte Rubra invadira o castelo da nossa família, era preciso sair,
influir no lado de fora: criei uma associação de apoio a vítimas de
assassinato, o Instituto Valério Luiz, e ingressei numa pós-graduação em
Criminologia e Segurança Pública pela Universidade Federal de Goiás.
Assim segue a nossa luta, enquanto esperamos a definição de uma data
para o júri popular a fim de obtermos, no caso do meu pai, justiça, e
não o acréscimo dos absurdos índices de impunidade do Brasil quando se
trata de jornalistas assassinados.
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